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A arte preserva a vida

O FAE - Festival de Arte Espírita - foi realizado pela primeira vez nos dias 23 e 24 de novembro de 1991, no Instituto Educacional Emmanuel - Goiânia - GO , com o objetivo geral de divulgar a Doutrina Espírita através da arte, bem como integrar as casas espíritas, estimular a criação de oficinas e grupos de arte nas casas irmãs e assistir vibratóriamente à espiritualidade. Trouxe como slogan "A arte é a expressão da alma na sua intimidade."
Quando da realização do II FAE, adotamos como slogan de divulgação a frase "A arte preserva a vida", porque era um ano (1992) em que todo o país estava envolvido em grande campanha pela natureza (Rio - ECO 92).  Hoje, esta frase tem para nós um significado ainda maior: compreendemos que o festival tem lutado pela preservação da vida também no plano da espiritualidade, cuidando de espíritos, conduzindo-os à postos de socorro, a hospitais, onde depois de tratados, são levados à escolas e reeducados para a vida do espírito.
Na ocasião de sua segunda edição, nos foram trazidas notícias do que ele seria no plano espiritual. Falanges de jovens, meninos de rua, prostitutas, mendigos, doentes, na sua maioria, entidades que vagavam pelas ruas, foram atendidas e convidadas a conviver com Jesus, por Jesus e para Jesus. No ambiente espiritual por sobre o ambiente físico em que ele seria realizado, a espiritualidade nos dava conta de que fora construído um hospital de grandes proporções, que funcionaria como uma estalagem bendita a receber os caídos do vício, do sexo, da indiferença, do descaso da sociedade. Nós estaríamos no papel de Jovens Samaritanos e participaríamos no auxílio, no socorro desses nossos irmãos. Tudo estava pronto, em nome de Jesus para, mais uma vez, atendermos através da arte, da música, da pintura, da poesia, do teatro, mas principalmente, através do amor e da alegria.
As casas participantes se transformaram também em postos de primeiros socorros às entidades.  Na casa em que militamos (Grupo Espírita Seareiros do Bem) éramos encarregados de dialogar com espíritos em sofrimento. O caso que relatamos agora, é a história, o depoimento de um menino de rua atendido pelo I FAE, como exemplo deste atendimento imenso que o festival tem propiciado. Cumpre-nos o grato desejo e o dever de trazer a público, o drama de Fernando.
Em horário especial, incorporado à médium, Fernando nos chegou para o diálogo de atendimento. Desconhecendo o fato de estar desencarnado, trazia através do fenômeno de ideoplastia a cena dolorosa de sua morte. Com os cuidados devidos, o argüimos a respeito e ele nos contou que, juntamente com outros companheiros, se preparava para dormir numa praça. Já estavam deitados e ele fora obrigado a se levantar e correr na tentativa de fugir à morte. Correu, mas foi atingido por uma rajada de metralhadora. Desencarnou. Com poucos diálogos, o esclarecemos de seu estado. Com esforço, contínhamos as lágrimas que insistiam em nublar nossos olhos. Ouvimos dele uma frase que jamais esqueceremos, e com emoção, mal conseguíamos responder-lhe a pergunta: - Por que tanta bondade, meu Deus? Ninguém nunca foi bom com a gente! .... Começamos então, a compreender a importância do Festival de Arte Espírita.
Fernando continuou a ser atendido, agora na espiritualidade, assim como seus companheiros e tantos outros que se manifestaram, e, revelando bondade, consentiu  em  auxiliar com sua experiência dolorosa, para que pudesse servir de divulgação deste trabalho do Cristo, que tem como veículo a Arte Evangelizada. Aqui estão suas palavras (sem alterações) trazidas em reunião de 03 de julho de 1992:

DEPOIMENTO - ESPÍRITO FERNANDO - 03/06/1992

"Meu nome é Fernando. Hoje tenho 19 anos e minha última vida na Terra foi muito difícil. Era eu um menino de rua e para lá fui com apenas quatro anos de idade.  Meus pais chegaram para mim, um dia, e me falaram:   -  Fernando, você já é um homenzinho; você tem condições de ganhar algum dinheiro.... Então você sai com seu irmão mais velho e faça alguma coisa, para nos trazer dinheiro.
Acontece que a vida na rua é traiçoeira. Você sai de casa querendo fazer "x" e acaba fazendo  "y" . Isto aconteceu comigo e o fracasso chegou. Eu ficava cada dia mais revoltado com minha mãe, com meu pai, pela vida miserável que eu levava... Eu tinha que trabalhar, não podia jogar bola! Eu tinha que sustentar minha casa, enquanto minha mãe pegava o dinheiro e ia beber. Chegava todos os dias em casa, bêbada e nos batia, em mim e em meus irmãos. Ora, um dia me cansei, saí para trabalhar e não mais voltei. Voltar pra quê? Sofrer em dois lugares - na rua e em casa? Era melhor sofrer só na rua... fui conhecendo outras crianças mais velhas e fui induzido a deixar de trabalhar, porque o dinheiro que eu ganharia roubando era maior e mais fácil. Comecei então, a roubar. Fizemos uma pequena quadrilha, um grupo de pivetes;  cheirávamos cola. De vez em quando varríamos a casa de alguém em troca de dinheiro ou um prato de comida.
Tinha eu então, sete anos de idade, quando um senhor - me lembro como se fosse hoje, da sua aparência: alto, forte, bem vestido - chegou para mim e meus amigos e disse:  "- Olha, se conseguirem para mim tantos relógios, tantas pulseiras, tanto dinheiro, eu posso dar para vocês comida, roupa..."  e assim fizemos. Eu  já era um pai de rua. Só que, um dia, nós não queríamos mais aquilo. O que aconteceu? Ele nos ofereceu droga e aceitamos.  A droga entrou em nossa vidas como uma bola, que sempre faz parte do desenvolvimento de uma criança. Afundamos cada vez mais no roubo, nessa vida, e assim crescemos. Crescemos na lama, no lodo. Mas e a nossa consciência? O que aconteceu? Ela se transformou também. Lá fora a crueldade é muito grande e a gente se torna cruel. Não confiamos mais em ninguém, porque ninguém confia na gente. Nós transmitimos medo; todos têm indiferença. Este medo nasce, como uma flor nasce na terra. Só que a flor é regada, cresce bonita; a gente é maltratado e cresce cheio de espinhos. Foi isto que aconteceu.... Ora, com a droga na cabeça e com a revolta, o que faltava era apenas um assalto. "- Então vamos fazer o assalto; desta forma ganhamos mais!" O assalto não é como o roubo; ele é maior, com mão armada. Partimos para o assalto. E não foi só um, foram vários; nem uma morte apenas, foram várias...
Aos 15 anos de idade, eu e meus amigos já tínhamos uma aparência horrível - aquela que as pessoas olham e passam de lado - mas a gente já estava completamente dominado pela rua. Continuamos vivendo assim, mas cada vez pior, mais podre... Um dia, meus amigos e eu, Anderson, Frederico, Gilberto, Flávio e o Carlos; Maria, Ana, Jaqueline estávamos reunidos para dormir, quando chegou um grupo de extermínio e, com suas metralhadoras barulhentas, com seu sangue frio, disparou sobre nós....  E bem que merecíamos. Éramos apenas os malandros de rua, um problema social que faz com que a cidade fique mais feia, mais podre... Por que não acabar com ele?! Eu tinha 17 anos.
Daí em diante, sofremos muito. Nossos corpos todos furados. A droga tinha corroído nossos corpos. Não entendíamos aquela situação...   Estávamos mortos, atirados no chão; ficamos confusos, olhando de pé, o sangue escorrer... O que era aquilo?...
 Mas um dia, a luz bateu! Aquela luz estava tão forte, tão bonita! Junto com a luz, uma música bela, que falava sobre a gente, sobre a criança de rua. Ora, aquela música era a nossa vida! E uma luz forte com a melodia linda, acolheu nosso grupo e nos carregou para muito longe. Não nos importávamos com a distância - estava nos fazendo tão bem! Nós estávamos em São Paulo e, de repente, chegávamos em Goiânia. Ao chegar no auditório, quanta gente! Quantos espíritos! A música cada vez mais forte. E aquela luz era tão grande, que cegava nossos olhos e banhava nossos corpos. Entramos e nos sentamos no chão. Era um festival de música. Quanto amor naquelas palavras; quanta luz saía daquelas pessoas que cantavam; quantas músicas belas e melodias maravilhosas; quantos jovens reunidos ali!....  Ficamos assistindo tudo, embora sem entender o que nos acontecia. De repente, uma prece linda é feita - alguém lembra Nosso Mestre de Luz - fazendo com que Jesus nos banhasse. Que prece linda!   Quando vimos, as pessoas se retiravam. Por que acabou? Tudo estava tão bonito! Ficamos ali parados, quando cinco pessoas nos convidaram a participar de um grupo. Nós ficamos espantados com tanta bondade.  Ninguém é bom com a gente!? Mas depois de tanta beleza não íamos desconfiar naquele momento, e viemos para cá (Grupo Espírita Seareiros do Bem); outros foram para outras casas - eram tantas reunidas! Quando aqui chegamos, outra luz nos recebeu, tão forte e bela. Entramos, recebemos tratamento, alimentação, amor. Quantos de nós foram  assistidos, curados... encaminhados para palestras, cursos...
Que mais posso dizer, meus amigos?! Obrigado! Obrigado, amigos! Agora sei que todos os anos teremos o festival. Que este festival e todos os outros sejam tão bonitos como o primeiro!"

Fernando tão logo sentiu melhoras, revelando bondade e traço de espiritualidade de que é dotado seu espírito, nos auxilia buscando companheiros de infortúnio. Participa hoje, do Grupo Oficina de Arte, onde desenvolve a pintura e a musicalidade; convive conosco nos cursos e reuniões da Mocidade Espírita Jovens Samaritanos,  em nossos lares e nos horários de desdobramento natural. Nos momentos de tristeza, chora conosco, assim como sorri nos de alegria. Nos alenta e nos fortalece, assim como tantos amigos que conquistamos, nos encorajando a seguir neste trabalho tão bonito e árduo, que é a Arte Evangelizada, a Arte Assistência, a Arte Cura....

Departamento Doutrinário e Mediúnico do Instituto Oficina de Arte.

     
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